COMO NASCEU O NASPEC
Quando eu contava com 12 anos de idade, minha família recebeu a esposa e filha de um vaqueiro que trabalhava para um tio numa fazenda na Chapada Diamantina. Este era um procedimento habitual. Trouxeram a filha de 14 anos com o rosto literalmente inchado e diziam que tinha sido conseqüência de um dente arrancado que não sarou.
Na época, minha mãe levou a menina para o Hospital Santa Isabel, próximo da nossa residência. O quadro era tão grave que foi internada para fazer os exames e, a cada dia o estado de saúde dela piorava. Quando os resultados dos exames saíram, já havia o diagnóstico de câncer.
Nunca tinha visto nada igual, se ela já tinha chegado magra e abatida, piorava a cada dia, só havia destaque da cabeça, o corpo desaparecia. Íamos diariamente no horário de visita à tarde, era deprimente, ela não melhorava. Paralelo a isto tudo, percebi que os demais pacientes não recebiam visitas porque eram do interior e os parentes não tinham onde ficar. Aos poucos ia me chegando a um e a outro e timidamente dizia alguma coisa e iniciava uma conversa. Como era bom para eles, e com o tempo percebi que para mim também.
Quando a nossa paciente foi a óbito, fiquei chocada, afinal, era uma criança, estava num hospital e, mesmo com todo quadro apresentado, achava que iria ter alguma melhora, porém não foi assim.
Passaram-se alguns dias, comecei a sentir falta de visitar os pacientes, sentia necessidade de fazer alguma coisa por eles. Arranjava sempre uma justificativa para estudar na Biblioteca Monteiro Lobato, em frente ao Hospital e, depois fazer as visitas. No início tive dificuldades, mesmo sendo reconhecida pela equipe de enfermagem, pelas visitas anteriores, ainda era muito jovem e sem a presença de minha mãe, eles tinham receios, porém, fui tão insistente que conquistei um voto de confiança. Aos poucos vários detalhes se clareavam. Muitos pacientes tinham alta do hospital, mas não do tratamento e, como não tinham onde ficar voltavam para o interior, interrompiam o tratamento e nunca mais voltavam. Outros arriscavam as calçadas, jardim, porta do supermercado, rodoviária, etc. Mais aquilo era deprimente. Esta triste realidade ficava cada vez mais forte e me tocava muito, surgindo sentimentos de frustração e impotência por não poder fazer nada, então um dia resolvi, já que não podia fazer nada, que não voltaria mais.
Continuávamos recebendo pessoas do interior e acompanhando para os locais de tratamento, então um dia, recebemos outra paciente com câncer, já há alguns anos depois, achei nesta época que talvez pudesse reverter esta realidade triste, fazendo alguma coisa, nem que fosse de um a um. Assim, reiniciamos esta grande jornada que se estende até a presente data, tendo passado por etapas tão críticas e desafiadoras como as que atualmente ainda enfrentamos, só que, agora, contando com o indiscutível apoio de todos estes amigos que formam esta grande e forte família chamada NASPEC.
Romilza Medrado
Fundado há mais de 27 anos e oficializado juridicamente em 1996 o Núcleo Assistencial para Pessoas com Câncer - NASPEC tornou-se uma associação civil e filantrópica de assistência social e médico-hospitalar, ‘uma das entidades pioneiras no Brasil no atendimento que presta à comunidade baiana’, recebendo adolescentes, adultos e idosos, carentes e com câncer de todos os 417 municípios da Bahia.